segunda-feira, 18 de setembro de 2017

500.000 visualizações no blogue "A Busca pela Sabedoria"

Parece incrível mas é mesmo verdade. Aqui este blogue, onde tenho vindo a depositar textos de curiosidades sobre cultural geral desde 2009 ultrapassou o expressivo patamar de 500.000 visualizações.


Muito obrigado a todos estes leitores e leitoras. Ainda que nem sempre a um ritmo tão regular como seria desejável as publicações são para continuar.
 
Fica então uma breve lista de quais os texto mas vistos ao longo destes 8 anos e mais de 500.000 visualizações em ordem decrescente:

10 - Filme: "Planeta dos Macacos: a origem"
09 - País ou Estado mais pequeno do mundo?
08 - Ciprestes - Árvores Corta-fogo
07 - O Significado da palavra Matemática
06 - Significado e origem da palavra F.U.C.K.
05 - Porque se chama Invicta à cidade do Porto?
04 - Orgasmo masculino sem ejaculação - uma lição de Quintino Aires
03 - Filme “Sem tempo” – onde literalmente o tempo é dinheiro
02 - O que é um Loby, ou em Português Lóbi?
01 - Nike - uma Deusa Grega que deu origem a uma famosa marca

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Transformar os jogos lúdicos em ferramentas educativas e de treino

Se consultarmos um dicionário, por exemplo a Infopédia da Porto Editora, obtemos algumas definições e referências a palavra Jogo, tais como:
atividade lúdica executada por prazer ou recreio, divertimento, distração; atividade lúdica ou competitiva em que há regras estabelecidas e em que os praticantes se opõem, pretendendo cada um ganhar ou conseguir melhor resultado que o outro; partida série de regras a cumprir numa atividade lúdica ou competitiva; conjunto de peças que permitem a realização de uma atividade lúdica […].”
Desta definição e múltiplos significados ressalta o conceito de “Lúdico”, mas também de “competitivo”. Lúdico refere-se a algo divertido que fazemos para nos alegrar e recrear, algo agradável para o ocupar o tempo. Já a parte competitiva relaciona-se com um atividade em que se tenta ganhar, individualmente ou coletivamente perante adversários que jogam o mesmo jogo, ou simplesmente melhorar determinada performance.
 
Crianças brincando - Pieter Bruegel, o velho

Em todas estas definições, neste mas também noutros dicionários, não se fazem referências direta a atributos dos jogos na vertente pedagógica e educativa, ou sequer formativos, ainda que a dimensão competitiva a que se lhe atribui considera a “melhoria de performance” em determinadas atividades. Mas todos sabemos que existem e que são utilizados jogos de vários tipos para apoio a atividades educativas. Esses jogos nem sempre são os jogos que conhecemos pela sua relevância lúdica, alguns são, enquanto jogos pouco interessantes, destacando-se apenas pelos conteúdos direcionados a que recorrem. Mas será que os jogos originalmente pensados para divertir podem ser usados também com o intuito pedagógico, conjugando o útil com o agradável?

Existe com certeza essa possibilidade. Existe um neologismo para descrever a atividade de “uso de técnicas características de jogos em situações do mundo real, aplicadas em variados campos de atividade, tais como a educação, saúde, política e desporto, com o objetivo de resolver problemas práticos ou consciencializar ou motivar um público específico para um determinado assunto”, termo conhecido em português como “ludificação” mas adotando-se habitualmente uma palavra hibrida que deriva diretamente do inglês: “gamificação” que provém do “gamification”.

Na verdade estes conceitos ainda são algo recentes e não apresentados ao grande público de forma estruturada. Existem experiências deste género e que têm vindo a ser utilizadas em formações, especialmente motivacionais e de fomento de espírito de equipa e de grupo, o “teambuilding”. Há quem leve este conceito muito mais a fundo, transformando e adaptando atividades profissionais e laborais aos conceitos habituais de design de jogos, criando recompensas, obtenção de distintivos e criar níveis a atingir que incentivam o desempenho na atividade profissional.

Mas o objetivo deste texto era centrar-se mais naquilo que o uso de jogos concebidos para fins lúdicos pode ter no desenvolvimento de competências, especialmente no nicho dos jogos de tabuleiro modernos, considerados como aqueles que são produzidos atualmente depois da revolução de design que se deu a partir dos anos 90 do século XX.

É muito comum lermos e ouvirmos referências de como os jogos de tabuleiro são excelentes ferramentas pedagógicas. Certo é que alguns educadores, professores e formadores os usam em contextos múltiplos, formais e informais. Sabemos que alguns jogos, através da experiência lúdica que proporcionam podem desenvolver nos jogadores competências tais como: concentração, observação, negociação, raciocínio lógico/matemático, dedução, gestão estratégica, velocidade de análise, reflexos e por ai fora. Mas faltam algumas ferramentas de sistematização e avaliação de jogos disponíveis no mercado, acessíveis ao comum dos utilizadores, que permitam rapidamente escolher um jogo e de imediato o começar a utilizar direcionando-o para o trabalho de determinadas competências. Tendo reconhecido essa competência decidi criar, no âmbito de outro blogue, um primeiro draft de tabela de avaliação de jogos de tabuleiro para desenvolvimento de competências pedagógicas em ambiente escolar para crianças a partir dos 5 anos.

Surgiu então esta tabela que aqui se partilha também para conhecimento público e para o caso de mais alguém quiser debater este tema. Tal como os jogos de tabuleiro podem ser utilizados para desenvolver competências que se relacionam com questões pedagógicas também podem ser utilizados noutros contextos e para outros públicos em que importa melhorar e trabalhar outras questões. Aceder à tabela aqui.

Referências bibliográficas:
“Education games”, Wikipedia, disponíl em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Educational_game
“Gamification”, Wikipedia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Gamification
“Jogo”, Infopédia, disponível em: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/jogo
What is GBL (Game-based Learning)?”, Edtechreview, disponível em: http://edtechreview.in/dictionary/298-what-is-game-based-learning

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Alemanha, alemães e os exónimos: chamar nomes estranhos aos outros

São inúmeros os povos que ficaram conhecidos por nomes pelos quais não se reconheceriam normalmente, mas que acabam por os tolerar e até adotar, ainda que as origens possam não ser as mais simpáticas. Como alguns destes processos ocorreram há séculos, depois de múltiplas aculturações, mudanças mais ou menos violentas, já ninguém os toma como insultuosos ou desadequados. No fundo, os exónimos podem ser isso mesmo, dar nomes estranhos a termos estrangeiros para os adaptar à língua própria, mesmo que nada tenha que ver com o original.
 
Idun and the Apples - James Doyle Penrose

Um desses casos prende-se com a etimologia da Germania que para nós portugueses, é conhecida como Alemanha. Pegando apenas em algumas entradas da Wikipédia, devidamente referenciados, e outros textos de especialistas, podemos fazer um pequeno exercício de curiosidade sobre a origem do nome desse povo e dessa terra que conhecemos por alemães (ou germânicos) e Alemanha (ou Germânia).

Existem várias alternativas, umas mais rebuscadas que outras, mas todas elas igualmente interessantes. O objetivo aqui não é encontrar a mais correta, até porque pelas fontes não existem certezas absolutas, mas fazer um apanhado das várias possibilidades e refletir sobre as várias possibilidades.

A primeira hipótese é de que “Germanus”  e o plural “Germani” em latim surgiram a partir de “gérmen”, que significa semear ou disseminar, sendo utilizada também com o sentido de “parente” ou “aparentado”. Esse termo terá sido primeiro utilizado em 223 a.C. na inscrição Fasti Capotolini “Galleis Insvbribbus et Germ”, que pode ser traduzida por “povos próximos ou relacionados com os gauleses”. Também por influência de exônimo (que consiste numa tradução de um nome próprio para um língua estrangeira) celta o termo parece ter significado simplesmente “vizinho”. Em Irlandês antigo “vizinho” dizia-se “gair” e em galês “ger”, que apontava para a noção de “próximo”. Por outro lado, em Inglês “gash” significava “corte ou arranhão”, derivando dos proto-indo-europeu: “Khar”, “Kher”, “Ghar”, “Gher”. Esta última hipótese já aponta para uma relação com termos militares e bélicos.

Tácito parece ser o único autor antigo a sugerir que a origem do nome “germânico” remontasse ao nome de uma antiga tribo que durante o domínio romano havia mudado de nome, embora não existam mais provas do que a mera referência do autor. Já Estrabão associou os povos bárbaros do norte da Europa que não eram Celtas a descrição de “germânico”. Mas foi Posidónio o primeiro a utilizar o nome, por volta de 80 a.C. no seu livro n.º 30. Sabe-se desta referência pela citação do 4.º livro de Ateneu, que em cerca de 190d.C. citou Posidónio: “Os Germani à tarde servem à mesa carne assada com leite, e bebem seu vinho não diluído”. [1].

Sem dúvida que “Germano”, ou “German”, era o apelido usado por gauleses e romanos para designar os povos do outro lado do Reno. Mas existe outras possibilidades para a origem dessa palavra. Da composição de “ger”, que significaria lança,  surgem os “homens da lança [4]”. Outra possibilidade, embora aparentemente menos direta, é a da palavra “Wermann”, relacionada “War” em inglês e que provém do velho “ger” de origem indo-europeia. De índole militar surge “Germanus” em latim e “Guerra” como palavra de adaptação para os galo-romanos, que já teriam utilizado o termo antes dos romanos para os seus “vizinhos” [2]. O termo “alemães” deriva do baixo latim, “alamanus”, tomado do "Alemannen" em germânico que era uma das etnias dos povos germânicos que vivia no sudoeste do atual território Alemão, podendo significar “homens estrangeiros” também [3].

Segundo Johann Zeuss, em irlandês antigo, “gair” significava “vizinho”. Por seu lado, Eric Patridge sugere que “gar” ou “govin” significava “gritar”, defendendo que a teoria de relacionamento com “ger”, a lança, estava obsoleta [4], e que a origem da palavra estava então no termo “homens barulhentos” [5]. Outra possibilidade é a da relação com ganância “greed” [5].

São então várias as possibilidades. Para os restantes povos, os germânicos poderiam bem ser aqueles vizinhos barulhentos que andam armados com lanças, sempre preparados para a guerra. Talvez por isso os alemães não usarem nem os termos de origem alemã nem germânica e optarem por Deutsch que em germânico antigo significará qualquer coisa como “do povo“ ou “popular“. Ou seja, o mais correto será mesmo utilizar o termo Deutsch e Deutschland pois estes termos parecem ser menos exónimos, ou seja, traduções de outras línguas que nem sempre são muito simpáticas e adequadas a descrever e identificar quem descrevem. Colocando-nos atualmente no papel dos alemães, parece credível que gostem mais de ser conhecidos como „vizinhos“ do que como „homens das lanças“, sendo que „povo“ sempre parece muito mais neutro.

Referências bibliográficas:
[1] “Germanos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Germanos
[2] BOSWORTH, Joseph. (1836). The Origin of the English, Germanic, and Scandinavian
Languages and Nations: With a Sketch of Their Early Literature and Short Chronological Specimens ... from the Moeso-Goths to the Present Time,

[3] “Germanicos”, Wikipédia, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alem%C3%A3es
[4] “Names of Germany”, Wikipédia, disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Names_of_Germany
[5] PARTRIDGE, Eric (1958). Origins: A short etymological dictionary of modern engkish. Routledge.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Como os bancos criam moeda virtual e a alternativa do Bitcoin

No documentário ”Bitcoin: O fim do dinheiro como nós o conhecemos”, da autoria de Torsten Hoffmann, faz-se uma breve introdução à história do dinheiro, mas o objetivo é projetar no futuro como será o sistema monetário e financeiro. No documentário é abordado conceito de moeda virtual conhecido como Bitcoin, que permite criar um modelo monetário internacional sem intervenção estatal nacional e bancário, em teoria imune a criação descontrolada de moeda fiduciária (que depende apenas da confiança que nela se deposita). Ou seja, apesar do Bitcoin ser uma moeda virtual permitiria controlar a multiplicação de dinheiro virtual no sistema financeiro internacional, basicamente porque evita replicação de crédito para além da quantidade de moeda preestabelecida. Ou seja, ao contrário de um banco, que pode emprestar dinheiro que não tem de facto, criando artificialmente nova moeda na economia, com o Bitcoin implementado de forma generalizada tal não seria possível, pois o dinheiro só é transferido se existir ainda que seja um número virtual. Isto pode parecer estranho, mas vamos aprofundar um pouco mais esta temática, com base nas informações presentes no documentário já referido.
 
Mercadores a contar dinheiro - Salomon Koninck

Os Estados, desde o momento em que abandonaram a relação com o padrão ouro das suas moedas, podem emitir a quantidade de moeda que entenderem, sendo que os limites são apenas definidos pela reação do sistema financeiro a essa emissão de moeda. Ou seja, não necessitam de ter essa quantidade de dinheiro a circular na economia equivalente ao ouro nas suas reservas nacionais, basta haver confiança de que aquele papel ou metal vale o que nele se inscreve, daí o termo fiduciário que é um sinónimo de “confiança”. Habitualmente são os indicadores de inflação e deflação que levam à produção de moeda, tal como da confiança dos seus utilizadores. Se existe inflação e aumento dos preços evita-se produzir mais moeda pois é uma forma de impedir que o dinheiro circulante desvalorize e os preços aumentem ainda mais. Por outro lado, com a deflação produz-se mais moeda, de modo a desvaloriza-la, encorajar o consumo e evitar que se acumule dinheiro com a espectativa de ganhos futuros, uma vez que o dinheiro acumulado tende a valer menos com cada nova emissão de moeda. Simplesmente deixa de compensar ter o dinheiro “parado” e os detentores de capital são impelidos ao investimento. A tudo isto, tanto pela via da inflação e deflação, tem uma relação com a especulação financeira, uma vez que existe grande imprevisibilidade pela complexidade destes sistemas que são altamente reativos.

Neste documentário de Torsten Hoffmann refere-se também o efeito dos bancos que, ao acumularem e emprestarem dinheiro, através dos saldos negativos, criam moeda artificial na economia. De modo simplificado: se um banco tem mais dinheiro em crédito do que tem na realidade em depósitos e ativos acaba por colocar mais moeda em circulação na economia do que realmente deveria existir. E este fator multiplicativo pode ser grande se o pensarmos enquanto sistema de depósitos, investimento e empréstimos em que o mesmo dinheiro é continuamente investido e emprestado na forma de dívida que pode não corresponder aos ativos e onde existem múltiplos lucros potenciais relacionados com algo que na prática não existe.

Em teoria, segundo os defensores do Bitcoin, um sistema económico com base nesta moeda poderia ser menos propenso a crises e a bolhas especulativas. Seria supostamente mais estável, ainda que os Estados perdessem parte dos seus meios de intervenção na economia através da manipulação da moeda. Paradoxalmente, seria um sistema altamente restritivo mas incrivelmente liberal pois impedia a intervenção estatal. Ou seja, seria liberal e restritivo em simultâneo, virtual mas real por não crescer descontroladamente.

Não sou economista e muito menos especialista em sistemas financeiros e bancários, mas o documentário é interessante para explorar estas questões e para tentarmos perceber a complexidade do sistema financeiro e monetário que utilizamos todos os dias, tal como perceber que existem alternativas ao dinheiro, tal como o conhecemos.
 
 
 

 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Venezuela: a pequena Veneza?

A versão mais comum para a etimologia do nome Venezuela remete para uma associação que os primeiros exploradores terão feito com a cidade de Veneza. Quando os primeiros exploradores entraram no lago Maracaíbo em 1499 Américo Vespúcio associou as casas construídas sobre estacas de madeira de Palafintos do povo Añu, elevando-as acima do lago, às construções da cidade de Veneza. Assim a zona ficou conhecido como “Pequena Veneza” que em italiano se forma pela adição do sufixo de diminutivo dando origem à palavra “Venezuela”.
 
Arturo Michelena - Ataque aos Barcos
Fonte: http://www.theequinest.com/arturo-michelena-2/

Mas existe uma outra versão, segundo Martin Fernández de Enciso que afirma na obra Summa de Geografia de 1519 que junto ao logo existia uma rocha plana sobre a qual estava edificada um povoado indígena conhecido como Veneciuela.

Assim, o nome Venezuela pode ser nativo ou não, pois não se sabe se o nome atribuído ao povoado situado na tal rocha se relaciona ou não com a associação de Américo Vespúcio a Veneza do primeiro povoado que terão encontrado anos antes.

Estas origens etimológicas levantam questões interessantes sobre a história e afirmação dos povos. Será que os descendentes dos indígenas aceitam este nome? Será que não deixa ainda amarras perante um colonialismo? Mas, ao mesmo tempo, os atuais venezuelanos também são, na esmagadora maioria, descendentes de não-nativos, se é que isso hoje ainda tem algum significado.

Na construção dos nacionalismos e identidades coletivas existem processos de criação e invenção de símbolos, narrativas e cultura que podem ser modificados. Outros países mudaram os nomes que se alicerçaram com o colonialismo, outros parecem querer manter essa herança histórica.
 
Referências:
Venezuela, New World Encicplopédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível:
http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Venezuela
Venezuela, Wikipédia [em linha]. Consultado em 1-08-2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Venezuela

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária

Há pouco mais de um ano publiquei aqui no blogue um texto sobre teoria do decrescimento económico, a propósito de um livro de Serge Latouche: Decrescimento económico - Uma proposta revolucionária.
 
Há cerca de um mês a RTP1 exibiu um documentário que aborda o mesmo tema e onde Serge Latouche participa como um dos especialistas entrevistados no documentário. O documentário "Decrescimento: do Mito da Abundância à Simplicidade Voluntária", da autoria de Luís Picazo Casariego e Manu Picazo Casariego, está disponível no youtube e pode ser visto devidamente legendado e com narração em português.
 
Numa altura em que os EUA põem em causa os acordos ambientais de Paris as teorias do decrescimento parecem ser ainda mais revolucionárias, mas será que temos alternativa? Como poderemos resolver o problema do excesso do consumo de recursos naturais, que exaurem o planeta a um ritmo superior à sua capacidade de renovação? Como poderemos fazer para manter o nosso nível de vida, especialmente se os países mais pobres atingirem o nível de consumo dos países mais ricos?
 

 
 

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Quando um jogo de tabuleiro contribui para um projeto colaborativo sobre metabolismo urbano: Urbanwins e Dixit


Penso que já todos ouvimos e lemos muitas referências ao uso de jogos de tabuleiro modernos em contextos não lúdicos, até em empresas, aplicados a dinâmicas orientadas para as suas necessidades e atividades. Este texto não aborda essas imensas possibilidades, mas apenas um caso muito concreto de aplicação real em Leiria.


A propósito de um projeto da União Europeia, que está a decorrer em Leiria, chamado UrbanWins, surgiu a necessidade de animar as sessões colaborativas públicas locais. Do guião e indicações de orientação constava a necessidade de criar algum tipo de atividade para fazer “desbloquear” os participantes.

As sessões de trabalho públicas cooperativas do projeto UrbanWins pretendiam envolver vários cidadãos locais, técnicos e não técnicos. Os participantes que se inscrevessem nas sessões de trabalho destinadas a abordar o tema do metabolismo urbano, dos resíduos e demais assuntos relacionados, seriam alocados a várias mesas de trabalho. Nelas iriam encontrar, seguramente, muitos desconhecidos. Havia necessidade de desbloquear e incentivar as pessoas a falarem um pouco de si e do tema em causa, antes de partir para a metodologia colaborativa propriamente dita do projeto.

Foi para este momento de preparação e desbloqueamento que surgiu a ideia de utilizar cartas do jogo Dixit. À entrada do espaço em se realizou o evento, depois de cada participante receber, de forma alectória, indicação da mesa em que se iria sentar, havia um painel disposto com várias cartas do Dixit Odissey. Cada participante foi convidado a escolher uma carta do seu agrado, sem qualquer sugestão ou outra orientação.

Depois de todos os participantes estarem devidamente sentados o condutor da sessão pediu para que cada pessoa se apresentasse e explicasse se havia alguma relação entre o tema a tratar e a carta que cada um havia escolhido. De notar que os participantes não sabiam o intuito da escolha da carta.

De um modo geral, quase todos os participantes disseram que escolheram a carta de forma aleatória, mas de imediato conseguiram fazer uma leitura e análise da sua escolha, encontrando uma justificação de cariz ambiental para a sua opção subjetiva e supostamente aleatória. Afinal as escolhas não tinham sido assim tanto ao acaso. Afinal havia sempre uma relação, mesmo que inconsciente, com o tema a tratar. As cartas, com os seus desenhos surrealistas, permitiram explorar a subjetividade de cada participante e iniciar o processo criativo que se queria depois potenciar posteriormente na sessão propriamente dita do Urbanwins, direcionada para os temas do metabolismo urbano e ambiente urbano.
Nota: para conhecer as atividades que se realizam em Leiria envolvendo jogos de tabuleiro modernos basta seguir a página do Clube de Boardgamers de Leiria.
#urbanwins #dixit #boardgamersleiria

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Como o Urbanismo Linear salvou Estalinegrado dos Nazis

O desenho urbano das cidades tem um efeito marcante nas sociedades urbanas, que vai além da funcionalidade, vivência e atividades urbanas nelas desenvolvidas. Um desses casos é o da antiga cidade de Estalinegrado, atual Volgogrado.

A cidade passou a ostentar o nome de Estalinegrado a partir de 1925, em plena implementação do comunismo no antigo império russo. Como cidade que detinha o nome do líder, Estaline não pode deixar de dedicar recursos e esforços para o seu crescimento e enriquecimento, tal como a sua defesa durante a 2.ª Guerra Mundial.

Desenhos originais de Arturo Soria y Mata (1882)
Fonte: https://web.archive.org/web/20140604075645/http://www.alu.ua.es/a/arg18/Web/arturo_soria.html
Os urbanistas soviéticos tentaram implementar novos princípios urbanistas que pudessem materializar a ideologia comunista. Intervieram em várias cidades, incluindo Estalinegrado, onde implementaram o modelo de cidade linear, criado no final do século XIX por Arturo Soria y Mata, mas depois desenvolvido por M. Okhitovich and M. Ginsburg já com intenções políticas e ideológicas, apelidadas de desurbanismo por diluírem ainda mais a cidade no campo. Embora em Estalinegrado esse modelo não tenha sido tão evidente como em Magnitogorsk, a influência dessa nova visão do urbanismo soviético teve os seus efeitos na cidade. No fundo isso resultou de expansões de novas zonas urbanas de forma linear ao longo de grandes vias que se conectavam entre si. Este modelo acentuava a igualdade entre as várias zonas urbanas, pois diluía o princípio clássico de um centro urbano em que se concentravam as principais funções nevrálgicas, com diferentes graus de hierarquia e importância e múltiplos centros organizadores do espaço urbano.
 
Plano Geral de Magnitogorsk por Ernst May (1931)
Fonte: https://thecharnelhouse.org/2010/10/01/ernst-may-%E2%80%9Ccity-building-in-the-ussr%E2%80%9D-1931/
 
Apesar do conceito de cidade linear hoje ser insustentável há que relembrar que estes modelos foram desenvolvidos antes da massificação do uso do automóvel individual, partindo do princípio em que as vias lineares que definiam a forma linear urbana seriam servidas por comboios.

Aquando da invasão Nazi durante a 2.ª Guerra Mundial Estalinegrado foi atacada e cercada, sendo uma cidade chave importante para a estratégia alemã de acesso aos campos petrolíferos da zona do Cáucaso e do Mar Cáspio, numa zona de atravessamento do grande rio Volga. Importava também o objetivo simbólico destruidor da moral inimiga caso conquistassem a cidade que ostentava o nome do líder comunista.
 
Cidade estrada de Edgar Chamberless (1910)
fonte: http://arqui-2.blogspot.pt/2015/02/la-influencia-de-la-ciudad-lineal-de.html
 
Por razões de uma anormal dureza do inverno russo, pela disposição da cidade ao longo do rio Volga, pelo sacrifício inacreditável de vidas humanas dos defensores, mas também pelo seu urbanismo linear, em que na prática não existia apenas um único centro para dominar e conquistar, os nazis nunca conseguiram conquistar totalmente a cidade, perdendo depois de muito esforço a batalha de Estalinegrado e ditando o desfecho da 2.ª Guerra Mundial.
 
Algumas referências bibliográficas:
CHUECA GOITIA, Fernando. Breve História do Urbanismo. Editorial Presença, 1996.
GILBERT, Martim. A Segunda Guerra Mundial. Dom Quixote, 2009.
MUMFORD, Lewis. A Cidade na História. Martins Fontes, 1998.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A revolução dos videojogos: um documentário

O Canal Odisseia tem exibido uma série de documentários sobre  o mundo dos jogos de vídeo. No documentário de 2016 “Gaming, a revolução digital”, ou no original “Gaming: The Digital Revolution, the Global Virtual Tsunami”, da autoria de Jerôme Fritel, aborda-se a história dos videojogos e a rápida transformação que a indústria tem tido, tal como alguns dos seus impactos socioeconómicos. Alguns desses impactos mais impressionantes provêm dos E-Sports, que neste momento começam a rivalizar com os desportos de massas tradicionais. Os novos ídolos desportivos virtuais ganham dezenas de milhares de euros por mês, pertencem a grandes equipas, têm patrocínios milionários e são venerados como ídolo pelos aficionados dos jogos. Apesar de tudo isto se passar no mundo virtual é bem real. Um dos jogos que permite essa nova realidade virtual é o League of Legends, mas há muitos outros.

Autor desconhecido
Fonte da imagem: https://www.pinterest.pt/phatcatholic/video-games/?lp=true

Mas as notícias surpreendentes do mundo dos vídeos jogos não passam apenas pelos E-Sports. Casos de jogos gratuitos que são utilizados através das redes sociais ou por aplicações de smartphones têm efeitos surpreendentes, chegando a mais de um bilião de utilizadores. Casos como a empresa que criou o Angry Birds, apesar de ser um jogo gratuito, gera milhões de lucros e tornou-se num negócio em expansão para áreas externas ao vídeo jogos. Se os jogos de vídeo eram coisas de crianças ou de geeks, hoje nem as mulheres adultas, que estavam tradicionalmente fora deste mundo, escapam. Existem jogos que as tornam verdadeiras “gamers” embora não tenham essa consciência. 

Os vídeos jogos constituem-se cada vez mais como uma forma de comunicação, rivalizando com os meios de comunicação tradicionais. Mas ainda não conseguimos perceber os verdadeiros impactos socioeconómicos da indústria. Do ponto de vista económico os orçamentos de alguns jogos já rivalizam com as grandes produções cinematográficas. Do ponto de vista comunicativo, há muito que a iconografia e os seus conteúdos extravasaram para a vida social.

Do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo já começam a surgir alguns dados. Se, em média, um ser humano consegue focar-se em 4 objetos, um jogador experimentado consegue triplicar essa capacidade. Por isso, nos EUA, estima-se que um jogador de vídeo jogos, quando atinge os 21 passou, em média, 10.000 horas a jogar, o que equivale ao tempo passado em aulas até ao ensino secundário. Assim, os jogos de vídeo podem têm impacto no desenvolvimento de competências pessoais, pelo que algumas empresas começam a valorizar o currículo de jogar dos seus candidatos, especialmente nas áreas de liderança, gestão e capacidade de foco e orientação para objectivos. Do ponto de vista militar nem o exército dos EUA ficou indiferente a esta tendência, uma vez que criou um jogo, chamado America’s Army que serve para recrutar voluntários.

Também estão por provar os efeitos nefastos, especialmente no que toca ao uso de jogos violentos. Havendo especialistas que defendem ser uma forma de expiação da violência, enquanto outros a assumem como catalisador para incentivar violências no mundo real. Também o excesso de horas passadas ao ecrã tem efeitos no sedentarismo que não podem ser desconsiderados.

Seja como for a revolução dos vídeo jogos está a acontecer, muito potavelmente só no início. Só podemos tentar adivinhar como serão no futuro e quais os seus impactos na nossa sociedade, especialmente numa altura em que os conceitos de “gamificatção” estão a ganhar espaço em cada vez mais áreas, o que não é mais do que transformar as atividades humanas de aprendizagem, tratamento e produção em jogos, melhorando a motivação, o prazer na sua realização e a produtividade. Afinal, parece ser uma excelente ideia.

Referências:

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desaparecimento dos pavimentos em pedra após Maio de 68 em Paris


Pode ser uma tremenda coincidência mas os pavimentos de Paris começaram a mudar depois de 1968. Nesse ano deu-se uma revolução que acabou por não o ser, conhecida como o movimento de Maio de 1968.
 
Manifestação em 6 de Maio de 1968 no Bairro Latino
Fonte: http://www.mheu.org/en/timeline/manifestation-1968.htm
 
Esta revolução colocou França em sobressalto, paralisou o governo e provocou eleições antecipadas. Ao movimento estudantil juntaram-se parte consideráveis da sociedade francesa, numa altura que governava o general Charles de Gaulle, um antigo herói da primeira e segunda Guerra Mundial. O movimente era inspirado por ideias esquerdistas e anarquistas, mas mais tarde ficou evidente que era uma manifestação do individualismo libertário, tendo sido usada como expressão do que se definiria como pós-modernismo de reacção aos movimentos massificadores que diluíam as liberdades individuais – daí o slogan “É proibido proibir”. O movimento, apesar dessas tendências esquerdistas, era profundamente libertário perante os valores da “velha sociedade”, seguindo as tendências dos movimentos sociais dos países desenvolvidos de então, que contribuíam para ampliar as liberdades individuais e coletivas.

Durante as manifestações, greves e acções do Maio de 1968 deram-se imensos confrontos com a polícia, verdadeiras lutas de rua onde tudo era utilizado como arma. Nessa altura, especialmente em Paris, os pavimentos eram feitos em calçada de pedra, sendo as pedras utilizadas como arma de arremesso contra a polícia.
 

Les Tabliers de la Rue Rivoli -  Robert Doisneau (1978)

Desde então as ruas de Paris foram sendo pavimentadas com betuminoso e hoje é raro encontrar zonas onde persistam os pavimentos em pedra. Poderá ter sido coincidência, e tal substituição ter ocorrido apenas pela melhor adequação ao tráfego automóvel, mas o certo é que esta mudança contribuiu para alterar a imagem das ruas e avenidas de Paris. Diria que se perdeu um valioso património urbano e paisagístico.
Rue de Rivoli na atualidade
Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Rue_de_Rivoli
 
Referências:
Maio de 68. Infopédia [em linha], disponível em:
https://www.infopedia.pt/$maio-de-68
Maio de 1968. Wikipédia [em linha], disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Maio_de_1968

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Origem do termo “Freelancer”

Tal como a tradução direta  do inglês indica um “freelancer” é uma lança livre. A origem do termo estará relacionada com a Idade Média, quando os cavaleiros “alugavam” a sua lança. Ou seja, trabalhavam ao serviços do senhor feudal que os contratasse, isto porque era responsabilidade desse senhor garantir a seguranças das suas terras e participar em guerras, desencadeadas por ele ou a quem devesse vassalagem. No sistema feudal cada proprietário, ou “gestor” em nome doutrem, de terras devia vassalagem a um senhor de estatuto superior, que em teoria gerava uma cadeia de ligação até ao próprio rei. O rei (que supostamente era o maior dos senhores, num sistema que não conhecia ainda os valores do nacionalismo nem a organização do Estado Moderno), ou os vários senhores feudais poderiam solicitar aos seus vassalos (dependentes hierárquicos) serviços militares, quase sempre contabilizados em homens de armas ou abastecimentos, para além dos habituais impostos cobrados das mais variadas formas. Num sistema em que a moeda era escassa, o imposto poderia ser cobrado e pago em horas de serviço, dependendo da especialidade das pessoas em causa.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux

Ao analisarmos a Tapeçaria de Bayeux, referente à batalha de Hastings de 1066, que confirmou a conquita do reino de Inglaterra pelo Duque da Normandia (que curiosamente era vassalo do rei de França), ficou evidente a importância que a cavalaria deteve no campo de batalha. Nesta tapeçaria, que é um verdadeiro documento de suporte histórico, registam-se visualmente as mudanças e diferenças entre as táticas militares dos exércitos anglo-saxónicos, que defendiam Inglaterra com as suas táticas de infantaria pesada que recorria maioritariamente a grandes machados, e a flexibilidade do exército normando e da sua cavalaria conjugada com outras unidades militares especializadas, tais como arqueiros. Na batalha de Hastings ainda se ilustram alguns dos cavaleiros a usar as suas lanças como armas de arremesso e penetração de estocada, mas sem transmitirem o potencial de carga da cavalaria que ficaria associada ao imaginário popular dos torneios medievais.
 
Excerto da Tapeçaria de Bayeux
 
Posteriormente, os cavaleiros passaram a dominar os campos de batalha, sendo os “tanques da idade média”, e a lança usada nas cargas de cavalaria de modo semelhante ao que se representa nas recriações contemporâneas dos torneios medievais. O cavaleiro passou a usar a sua lança de uma forma mais sólida e integrada, criando uma simbiose artificial entre a arma, o seu corpo, a armadura e o cavalo, como arma que permitia transferir eficazmente e com precisão a força da carga do cavalo contra os oponentes. Terá sido isto a fazer destacar o valor das lanças, ao ponto de representarem os próprios cavaleiros.

Séculos depois, o termo foi adaptado, já na época contemporânea, para qualquer profissional que “alugasse” os seus trabalhos de forma temporária para a realização de um determinado serviço, habitualmente relacionado com uma ou mais áreas de especialidade, reforçando a sua individualidade.

Nota: o documentário "Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History " foi exibido em Portugal no canal Odisseia, com informação disponível em: http://odisseia.pt/programas/combate-armado-da-espada-a-metralhadora/

Fontes vídeo e online:
• “Freelancer”.  Wikipédia. [em linhas], disponível em: 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Freelancer
• Sword, Musket & Machine Gun: Britain’s Armed History. [documentário vídeo]  Trailer disponível em in: https://www.youtube.com/watch?v=OgYQ9d0rRQU

Foste bibliográficas de apoio
• NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval: Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Públicações Europa-América, 1999.
• SOLAR, David; VILLALBA, Javier (Dir.). História da Humanidade: Idade Média. Barcelona: Circulo de Leitores: 2007.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Processos colaborativos de decisão pública e o metabolismo urbano: o projeto Urban Wins

Leiria aderiu ao projecto Urban Wins [1], que tem como objetivo estudar o metabolismo urbano da cidade. Uma abordagem sistémica comparando as cidades a seres vivos não é recente. Já Patrick Geddes [2] tinha feito essa associação no início do século XX, inovando ao referir que as cidades evoluíam, cresciam, decresciam e até podiam morrer, consumiam e produziam. Foi na altura uma abordagem de grande originalidade. Esta abordagem orgânica seria, por vezes, contrária às tendências do movimento modernista do urbanismo, mais preocupado em optimizar as funções urbanas, vendo a cidade mais como uma máquina do que como ser vivo.


Quase um século depois o projeto Urban Wins centra-se nos metabolismos urbanos, partindo de todo uma herança de pensadores e investigadores que foram desenvolvendo abordagens orgânicas das cidades. Em 1965 Abel Wolman [3] definiu o “metabolismo urbano […] como a quantificação das necessidades de materiais e bens necessárias ao suporte das tarefas humanas nas cidades, incluindo a remoção e deposição dos resíduos” [4]. Já no século XXI Christopher Kennedy atualizou o conceito de metabolismo urbano para “O somatório de todos os processos técnicos e socioeconómicos que ocorrem nas cidades, resultando em crescimento, produção de energia e eliminação de resíduos” [5].

Mais que um ser vivo, os novos conceitos de metabolismo urbano consideram as cidades como ecossistemas. Logo, exigem abordagens sistémicas, que por sinal são bastante complexas, porque aquilo que define uma cidade é a variedade de atividades que nela decorrem, quase sempre associadas ao consumo e utilização de recursos naturais.  É exactamente isso que o porjeto Urban Wins pretente realizar para cada uma das cidades piloto, sendo Leiria uma delas. Pretende conhecer cada sistema urbano de modo a poder identificar medidas de redução dos outputs, especialmente dos resíduos produzidos. Isto porque a cidade é um sistema de consumo e produção, gerando subprodutos dessa dinâmica, entre eles os resíduos que têm de ser geridos.

Se o conceito de desenvolvimento sustentável foi defendido no relatório de Brundtland em 1987 [6] como sendo a conjugação do desenvolvimento económico, social e ambiental, atualmente os conceitos de desenvolvimento sustentável têm sido alargados. Facilmente encontramos referências que adicionam ou separam da componente social a dimensão cultural e política [7]. Do mesmo modo, com este alargamento teórico surgiram também criticas pela inoperância do conceito, sugerindo-se que o desenvolvimento sustentável se materialize de modo viável para casos concretos práticas, caso contrário pode perder o significado como conceito geral.

A dimensão política é explorada com particular atenção do projeto Urban Wins, na perspectiva da tomada de decisão pública assente em processos colaborativos. Pretende-se promover iniciativas de trabalho colaborativo com os stakeholders das várias cidades, onde, através de modelos participativos que promovem a equidade participativa assente na informação, se possam identificar os principais problemas locais e possíveis soluções.

De um modo muito sucinto estes modelos participativos serão chamados de Ágoras, numa relação com os antigos centros de vida social das polis gregas, onde terão nascido as ideias que levaram à criação da democracia (pelo menos em Atenas, ainda que as sessões políticas formais se realizassem na Pnyx [8]). Nessas sessões cada representante dos stakeholders irá participar numa mesa de debate onde identificarão problemas e questões a tratar isoladamente. Um facilitador garantirá que todos podem conhecer os conteúdos identificados e que esses mesmos conteúdos são ordenados tematicamente de forma visível para todos. Depois haverá um sistema de votação com múltiplos votos. Os problemas/assuntos mais votados voltam às mesas para discussão, sendo aprofundadas as problemáticas, as dificuldades, barreiras e soluções. Por fim as soluções podem ser redigidas a apresentadas novamente por um representante de cada mesa de trabalho. Estes conteúdos serão depois tratados em relatórios de análise.

Sessão de treino e formação para a realização das ágoras do projeto Urban Wins

Isto é um exemplo simples da implementação de uma metodologia colaborativa, que tem obviamente as suas próprias regras e técnicas de funcionamento, com necessidade de controlo pelo facilitador dos tempos de intervenção, do foco nos assuntos a tratar e até da possibilidade de recorrer a alguns especialistas e técnicos para explicação de conceitos e de outras informações que possam ser importantes para os processos de identificação, votação e decisão. Serão realizadas várias ágoras presenciais onde estas e outras metodologias colaborativas podem ser utilizadas. Vão ocorrer em simultâneo ágoras online.

O projeto Urban Wins pretende ser um exemplo, um teste para poder ser seguido noutras áreas, demonstrando como a conjugação dos modelos científicos de casos reais e dos modelos participativos e colaborativos podem gerar soluções verdadeiramente sustentáveis para o futuro do nosso desenvolvimento colectivo.

Nota: O Projeto Urban Wins é um projeto Europeu financiado pelo Programa de Investigação e Inovação 2020.

Referências:
[1] https://www.urbanwins.eu/
[2] https://en.wikipedia.org/wiki/Patrick_Geddes
[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Abel_Wolman
[4] http://pme.pt/metabolismo-urbano-cidades-comem/
[5] https://urbanmetabolism.weblog.tudelft.nl/what-is-urban-metabolism/
[6] https://pt.wikipedia.org/wiki/Relat%C3%B3rio_Brundtland
[7] https://jus.com.br/artigos/22847/a-construcao-do-desenvolvimento-sustentavel
[8} https://pt.wikipedia.org/wiki/Pnyx

#urbanwins
#EUinmyRegion

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quando existiam dois e mais Papas em simultâneo

Houve um momento em que existiram dois Papas, dois chefes da igreja católica, reconhecidos como tal por vários reinos. Chamou-se a esse período da história medieval: “O Grande Cisma”. Poderíamos pensar que eram eventuais questões religiosas e espirituais que estavam em causa e levaram a essa separação, mas não foi bem assim. O facto de terem existido duas cortes pontífices, uma em Avinhão e outra em Roma, cada uma com o seu respetivo Papa, acontecia, principalmente, por questões políticas e administrativas.

Papa Inocêncio X - original de Velasquez (Sec XVII) e estudo de Francis Bacon (Sec. XX)
Fonte de imagem: http://de.phaidon.com/agenda/art/articles/2013/february/08/the-truth-behind-francis-bacons-screaming-popes/

O seculo XIII foi politicamente atribulado, com inúmeras guerras, locais entre senhores feudais e das restantes de maior escala entre reinos. O papado estaria envolvido direta e indiretamente em algumas delas. De notar que a própria igreja era uma poderosa organização que se constituía senhorios territoriais e administrativos. Existiam os “Estados Pontifícios” em Itália, em que o Papa era seu senhor ou príncipe, inserido no complexo sistema feudal medieval.

Voltando ao século XIII, a situação política na península italiana foi particularmente caótica. Os conflitos entre o poder papal e alguns dos reinos mais poderosos europeus eram uma realidade, especialmente por questões de propriedades fundiárias, de administração e tributação. De notar que a Igreja detinha propriedades muito consideráveis que administrava diretamente e indiretamente, que estavam isentas de impostos e dos contributos que o sistema feudal exigia por toda a europa, o que obviamente desagradava aos governantes, especialmente quando precisavam de mobilizar estes recursos para as suas campanhas militares.

Em 1309 o papado comprou a localidade de Avinhão à rainha Joana de Nápoles. Nessa cidade seria instalada a nova residência oficial, abandonando a histórica cidade eterna. Os papas deixaram Roma. A partir daí a composição do colégio dos cardeais seria maioritariamente francesa, resultando na eleição maioritária de papas franceses, de tal modo que o papado parecia ser um instrumento da coroa francesa.

Em 1377 o papa Gregório XI sentiu que Roma era de novo segura e voltou à cidade. Depois da sua morte uma multidão aprisionou os cardeais que, sob ameaça de mutilação por parte da população, escolheram um papa romano. O novo Papa, Urbano VI, forçou os cardeais a abandonar o seu estilo de via faustoso. Mas sabendo disto o rei Carlos V de França impeliu os cardeais franceses a abandonarem Roma. Posteriormente elegeram o primo do rei Carlos V, o cardeal Roberto de Geneva como novo Papa Clemente VII. A sua corte papal instalou-se de novo em Avinhão.

A europa dividiu-se politicamente, e supostamente religiosamente. Ingraterra, parte da Alemanha e da Itália apoiavam Urbano, embora com oposição em Milão e Nápoles. França e os seus aliados, incluindo a Escócia, apoiavam Clemente. A cristandade teria dois Papas.

Em 1409 reuniu-se um concilio na cidade italiana de Pisa em que se escolheu um novo Papa sem que se garantisse que o Papa de Roma e o de Avinhão Abdicassem. Por isso, nessa altura existiam formalmente três Papas em simultâneo.

Em 1414 reuniu-se um novo concílio em Constância. O Papa Romano abdicou enquanto o de Avinhão e o de Pisa foram depostos pelo concílio, embora continuassem a defender a sua legitimidade.

Seguiram-se vários outros concílios onde se tentaram eleger novos Papas, alguns em simultâneo, quase sempre motivados por disputas entre os vários reinos, por questões fiscais, mas também por uma crescente necessidade de reformar a igreja que se tinha secularizado e fortemente envolvido nas questões políticas e militares da época. Seria o prenuncio das futuras e definitivas separações cristãs que resultaram dos movimentos reformistas e protestantes no século XV em diante.

Referências Bibliográficas:
  • CUNHA, Mafalda Ferin. O que Foi: Reforma e Contra-Reforma. Lisboa: Quimera: 2002.
  • NICHOLAS, David. A Evolução do Mundo Medieval: Sociedade, Governo e Pensamento na Europa: 312-1500. Lisboa: Públicações Europa-América, 1999.
  • SOLAR, David; VILLALBA, Javier (Dir.). História da Humanidade: Idade Média. Barcelona: Circulo de Leitores: 2007.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Os Segredos da Bíblia - Um documentário à moda antiga do Canal de História

Provavelmente o título deste texto já terá afastado a grande parte dos interessados. Ultimamente o Canal de História não tem exibido verdadeiros documentários e apresenta um rol repetitivo de reality shows, de contexto norte-americano, que têm vindo a destruir a credibilidade do canal. Não que se deva esperar assistir a profundos e exaustivos documentários académicos, mas pelo menos exige-se que o dito canal tenham alguns conteúdos que se baseiem em fontes e em construções historiográficas minimamente sérias, caso contrário seria preferível e mais honesto mudar-lhe o nome.

A descrença de São Tomas - Caravaggio

No entanto, recentemente, provavelmente recuperando programas mais antigos, o Canal de História voltou a exibir um documentário à moda antiga. Ainda que seja bastante sensacionalista pela temática, a série de programas “Os Segredos da Bíblia” parece indiciar a tentativa de mais seriedade. São referidas fontes. Surgem comentários de enquadramento de alguns especialistas e a informação é apresentada quase sempre na forma de hipótese.

Em “Os Segredos da Bíblia” questiona-se a origem dos textos que compõem a coletânea de textos históricos, míticos e religiosos a que chamamos Bíblia. Entre muitas curiosidades são levantadas muitas questões que podem ser de extrema relevância, uma vez que os escritos da bíblia foram muito influentes na história da humanidade.
Refiro de seguida alguns exemplos de questões levantadas no documentário em causa, apenas a título de exemplo:

O novo testamento pode ter sido escrito por pessoas que não eram contemporâneas de Jesus, que podem ter vivido mais de 100 anos depois e que assinaram em nome dos seus discípulos para serem mais credíveis.

A referência a "virgem" Maria pode ser o resultado de um erro de tradução, pois no texto original estaria escrito "jovem mulher" que depois deu origem a “virgem” nas posteriores traduções.
Existem evangelhos que relatam o episódio do nascimento de Cristo numa casa normal, sem referências aos estábulos e animais.

O relato do episódio da ressurreição terá sido adicionado muitos anos depois ao texto original do evangelho, colmatando páginas supostamente desaparecidas para dar um final mais interessante ao relato que originalmente terminava com o relato do túmulo vazio.

Sabe-se que a compilação da bíblia tradicional católica romana resulta de ordens imperiais de uniformização dos vários cultos cristãos, que eram imensamente diversos e estavam espalhados especialmente pela zona oriental do império. De referir que foram muitos os livros e textos da época que foram retirados à versão final aprovada, isto porque detinham referências que, supostamente, não se conjugavam com a visão dos líderes religiosos cristãos no poder eclesiástico e nem com a visão política administrativa do Império Romano que via na uniformização religiosa uma ferramenta poderosa de gestão e estabilidade política. Ainda hoje existem várias versões da Bíblia com variações nos textos que inclui.

A postura e atitudes de Deus também parecem ir mudando ao longo dos textos, tornando-se mais benevolente à medida que a antiguidade dos textos diminui.

Todas estas referências são apresentadas como hipóteses viáveis no documentário, pelo que têm a grande vantagem de nos levarem à reflexão e a questionar. Só por isso vale a pena ver o programa, pois é uma maneira quase lúdica de aceder de forma introdutória a estes conteúdos, que habitualmente estão em formatos mais pesados.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A nossa sociedade é mais acelerada?

Quando uma funcionária de uma livraria, que por acaso até é minha amiga, me recomendou Byung-Chul Han, por conhecer mais ou menos aquilo que me interessa ler, acabei por aceitar a sugestão e experimentar. A informação da contracapa despertou-me interesse, tanto pelo conteúdo como pelo autor. Tratava-se de livro “O Aroma do Tempo: um ensaio filosófico sobre a arte da demora”, da autoria de um filósofo contemporâneo coreano-germânico, professor na universidade de Künste Berlin (Artes de Berlin), especialista em Heidegger.

Retrato do Dr Gachet - Van Gogh

Byung-Chul Han propõe-se a contrariar a ideia de que vivemos atualmente de modo mais acelerado. Para ele isso é apenas uma ilusão resultante do modo como as sociedades se organizam e de como os indivíduos vivem as suas vidas. Esta sensação de aceleramento ocorre pelo efeito da atomização e da queda das barreiras que dividiam e estruturavam o nosso tempo. Apesar de fazermos e conseguirmos fazer muitas coisas em simultâneo não existem as pausas que nos davam a sensação de avanço gradual e/ou sequencial. Assim vivemos a nossa vida num contínuo de atividades e tarefas sobrepostas que não nos preparam para o fim, para a morte. É aqui que sentimos a influência de Heidegger em Byung-Chul Han, na consciência da mortalidade humana, de que da condição humana faz parte a inevitabilidade da morte: o “Homem é um ser para a morte” - tal como diz uma amigo meu.

Assim Byung-Chul Han refere-se então à aceleração ilusória que nos encaminha para a morte sem preparação, sem as pausas de contemplação, compostas de pequenos fins, que criam as defesas para a inevitabilidade do fim último: a morte.

Byung-Chul Han parece demonstrar um certo sentimento neoplatónico, ao fazer a apologia da contemplação como necessidade na criação das barreiras – um tempo de pausa - que dissipam a sensação de aceleração.

Passando para exemplos mais concretos. Hoje temos dificuldade, por exemplo, em definir até quando se é jovem ou quando se pode considerar alguém idoso. Reina um certo relativismo que tenta suavizar a velhice e a morte. Nas atividades poucos são os profissionais que se podem dar ao luxo de ter apenas uma tarefa ou actividade em mãos. Os horários flexíveis permitem realizar o individualismo, mas podem deixar as pessoas desamparadas perante as incertezas crescentes do mundo.

Só por nos fazer pensar nestas questões Byung-Chul Han merece ser lido. É seguramente um filósofo a seguir com atenção, com tempo para contemplar as suas palavras.


Referências bibliográficas:

Han, Byung-Chul - O Aroma do Tempo: um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Lisboa: Relógio d'Água, 2016.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

A Máquina da Dívida e a ditadura dos credores

Recentemente, o canal Odisseia exibiu o documentário "Máquina da Dívida" da autoria de Laure Delesalle. Nele a autora faz uma sucinta análise sobre o modo como se foram construindo as dívidas dos Estados.
 
O Banqueiro e a sua mulher - Marinus Van Reymerswaeke
 
A autora, numa clara tendência económica e política anti neoliberal, resume a uma série recente de eventos históricos para estabelecer a origem das colossais dívidas públicas dos países desenvolvidos. Tudo terá começado com o fim do padrão-ouro aplicado ao Dólar, tornando-se uma moeda fiduciária, sem relação com as reservas federais de ouro dos EUA, em 1971. Terá sido o modo encontrado pelos EUA para emitir moeda necessária ao financiamento das dispendiosas guerras periféricas, mas que eram essenciais para a dinâmica da Guerra Fria. Posteriormente, os sucessivos efeitos das crises petrolíferas, iniciadas em 1973, com as escaladas de preços nas economias de consumo, completamente dependentes do petróleo, geraram grandes inflações, aumento generalizado dos preços, quebras de investimento, redução das poupanças e a necessidade de recorrer ao crédito para manter os níveis de vida crescentes nos países desenvolvidos.

Este terá sido o processo inicial, que passou a decorrer numa economia mundial globalizada e de intrincadas interdependências, que tornou os Estados, na construção e manutenção das suas políticas sociais e de bem-estar, completamente dependentes dos credores. A própria globalização económica terá contribuído para a dificuldade de controlo das dívidas futuras, pois nos anos 80 reforçou-se o otimismo nas políticas neoliberais que acentuaram as tendências de desregulamentação e redução do peso dos Estados na economia, tornando as dívidas soberanas cada vez mais suscetíveis de serem influenciadas pela especulação e pelos mercados financeiros internacionais flutuantes.

Segundo Laure Delesalle instalou-se a ditadura dos credores. Se na Idade Média os soberanos podiam contrair divida quase infinita aos credores para as suas dispendiosas guerras e projetos, pois podiam simplesmente recorrer da força para apagar literalmente as dívidas soberadas, atualmente os mecanismos de controlo são indiretos ou quase inexistentes. Mesmo que se apliquem medidas de austeridade, a carga de juros pode ser tão pesada que se torna insustentável pagar efeitvamente a dívida, contraindo-se novos empréstimos para pagar os empréstimos antigos e os seus juros. Por outro lado, hoje os credores perderam o rosto.


Podem ser obtidas mais informações sobre este documentário em: http://odisseia.pt/programas/a-maquina-da-divida/
 
 

segunda-feira, 27 de março de 2017

Definir o urbanismo pelo arado: origens do termo urbanismo e da prática de gestão das cidades

Voltando aos temas da origem de determinas palavras vamos entrar no domínio do urbanismo.  Qual a origem do termo “urbano”?

Consta que o substantivo urbano advenha do latim, da palavra "urbs", que significava cidade e tinha uma relação com à delimitação da cidade de Roma, do "urbum" que lhe definia os limites. Os romanos utilizavam o arado (ulmus aratri) para traçar os limites de um novo colonato. Traçavam o limite numa terreno livre de modo a criar uma área confinada para nela se construir a nova cidade, que iria albergar os lotes, arruamentos, praças e outros elementos urbanos (1). Para além disso os romanos faziam muitos outros rituais de consagração da própria proto cidade.

Arando em Nevernais - Rosa Bonheur

Este conceito romano diverge e afasta-se do termo grego “polis”, que significa cidade mas aponta mais para o sentido de comunidade humana. Isto poderá servir para nos questionarmos para a forma como ambas as comunidades viam as cidades e as suas comunidades urbanas, se era o contexto social que definia a cidade ou se era a forma da cidade que definia o contexto social.

Por outro lado, os romanos utilizavam de um modo mais abrangente o termo "civitas" também como sinónimo de cidade, com o conceito a aproximar-se mais do conceito alargado da "polis" grega.  De notar as aproximações e relações do termo "civitas" com civismo, civilidade, civilização, etc., estando tudo relacionado mais com a cultura e comportamentos que com uma dimensão material, embora a palavra “urbanidade” seja igualmente comportamental.

A gestão das cidades a partir da época contemporânea, mais concretamente de Ildefons Cerdá com o seu famoso plano de Barcelona de 1855 e de Haussmann em Paris em 1860, foram definidas como intervenções urbanísticas, em grande relação com o desenho e organização funcional material da cidade. 

Desde então a gestão das cidades mudou muito mas continua a ser definida como “urbanismo” e não “polismo” ou “civitismo”. Claro que parece anedótico e é uma brincadeira, até porque o urbanismo não se define hoje em dia pela relação direta com o termos latinos que lhe deram origem, mas parece evidente que fez um caminho para se libertar da inflexão do traçado e passar a assumir, de uma forma integrada e interdisciplinar, as questões sociais, ambientais e outras. Cada vez mais a gestão das zonas urbanas quer ser sustentável em toda a dimensão disciplinar que o termo comporta, sendo o traçado um dos elementos para chegar a esses fins, não o fim em si mesmo.

Fica a curiosidade da origem do termo e de quanto ele pode ter influenciado uma prática.

Referência bibliográfica:
[1] Francesco Bandarin & Ron Van Oers - The historic urban landscape: managing heritage in a urban century. Oxford: Wiley Blackwell, 2012.  p107

sexta-feira, 17 de março de 2017

Utopias – Os primeiros textos utópicos e a moralização das sociedades

Uma utopia pode ser definida como uma construção intelectual de sociedade ideal. Trata-se de uma sociedade impossível pois existe apenas na esfera das ideias, quase sempre falhando na sua possibilidade de concretização pela esmagadora complexidade das sociedades e dos indivíduos. É essa complexidade que se simplifica habitualmente nos postulados de construção das ideias utópicas. Talvez assim seja porque as sociedades não são inventadas num acto isolado e súbito de criação, mas por surgirem de processos complexos e morosos que se ligam à própria história dos grupos humanos.

Não faltaram propostas de utopias ao longo da história do pensamento ocidental. De notar que as utopias eram sempre definidas como alternativas ideais às sociedades existentes na época em que os criadores utópicos as definiam. Podemos até questionar se a ideia dos utópicos era realmente implementar as suas utopias ou apenas alertar para a necessidade de correcções de comportamento, de organização, de atitudes e valores nas suas próprias sociedades.


A Parábola dos Cegos - Pieter Bruegel "o velho"

Destaca-se a proposta filosófica de Platão na sua “República”, datada do século IV a.C., onde propunha uma sociedade aristocrática em que os líderes, chamados de “guardiães”, lideravam a comunidade pelas suas características pessoais, não por heranças, riqueza ou outras formas de diferenciação. De notar que para Platão o objectivo máximo da existência e o sentido da vida era a concretização do Bem. Estes guardiões saberiam com certeza como garantir, pois era mos mais sábios, justos e capazes de governar para o bem. Daí a noção de que as sociedades deveriam ser governadas por filósofos ou que os reis se tornassem eles próprios filósofos. Curiosamente isto vai ser ensaiado na europa do século XVII e XVIII com os “déspotas esclarecidos”, mais de 2.000 anos depois.

Saltando uns séculos, Thomas More escreveu, no início século XVI, a sua “Utopia”. Nesse livro reinventava a sociedade inglesa. Na sua utopia, a sociedade organizava-se em pirâmide, assente sobre o direito electivo familiar. As eleições seriam livres, sem candidaturas e lutas conflituosas. As leis seriam simples e todos os membros desta utopia teriam formação avançada em direito: todos seriam doutores em direito. Defendia que quanto menos leis mas natural, justa e racional seria a sociedade. Todos tinham de trabalhar. De notar que o termo escolhido pelo autor, a “utopia”, tem origens no grego, significando “nenhum lugar”, o que indicia que o objetivo dessa obra fosse o impacto de consciencialização moral mais que uma tentativa real de implementar a solução prescrita.

No século XVII Tommaso Campanella escreveu a “Cidade do Sol” em que defende um modelo de sociedade ideal de inspiração neoplatónica. O Estado era liderado pelo príncipe-sacerdote “Sol”. O monarca Sol era ajudado pela “potência”, “sapiência” e “amor”. Toda a sociedade era profundamente organizada pela razão. A propriedade privada era abolida, tudo era comunitário. Valorizava-se, acima de tudo, a cultura, ciência e educação.

Estas foram apenas algumas das primeiras utopias, algumas das mais conhecidas e que se associam a obras completas publicadas. Muitas outras surgiriam depois, especialmente no século XIX com os movimentos socialistas e anarquistas. Mas isso fica para outro texto. De notar que estas utopias aqui referidas foram muito radicais na sua época, o que levou a perseguições a Campanella e à condenação à morte de Thomas More, embora motivada por outras razões políticas e religiosas, nomeadamente pela sua recusa em aceitar a política matrimonial e religiosa de Henrique VIII. Já de Platão não consta qualquer perseguição, uma vez que era um aristocrata e que a sua cidade de Atenas na altura era uma democracia, apesar dessar mesma sociedade ter condenado Sócrates à morte por este contaminar o espírito da juventude ateniense com as suas ideias e questões.

Referências bibliográficas:
Campanella, Tomás (2006) - Cidade do Sol. Guimarães Editores.
Fernandes, António José (2015) – Introdução à Ciência Política – Teorias, métodos e Temáticas. Porto Editora.
Morus, Tomás (2009) – Utopia. Guimarães Editores.
Platão (2005) – República – ou Politeia. Guimarães Editores.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Hegel simplificado


Simplificar o famoso filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel é um verdadeiro serviço à humanidade, especialmente na época que corre.
Hegel produziu muito do ponto de vista filosófico e foi extremamente influente no pensamento ocidental posterior. Atingiu o mais alto cargo académico alemão na época e foram muitos os filósofos posteriores que partiram das suas teses filosóficas.
 
Retrato de Hegel - Schlesinger
Mas Hegel escrevia de um modo horrivelmente complicado. Os seus longos livros são de muito difícil digestão, até para especialistas. Talvez por isso não tenha atingido a popularidade de outros filósofos num público mais leigo.
O canal de Youtube “The School of life” produziu uma série de vídeo sobre filosofia, rápidos e animados. Aquele que dedicaram a Hegel é especialmente interessante, pois consegue, em alguns minutos simplificar a introdução ao seu pensamento.
 
 
Do vídeo podemos concluir então concluir a importância do pensamento de Hegel em alguns tópicos:
  • Defendeu a importância de estudar a história, pois na sua época o passado era visto como “atraso” ou como mero meio de compreender o passado, quanto muito para algum tipo de legitimação do presente. Hegel defendia que a história deveria ser estudada de um ponto de vista crítico, pois a sua não linearidade fazia com que muitos conhecimentos importantes tivessem ficado esquecidos. Ou seja, ao passado poderíamos ir beber conhecimento válido para o presente e para o futuro.
  • A noção de dialética das ideias e do conhecimento. Concluía que a humanidade vivia em constante conflito histórico, do conhecimento, do comportamento, dos valores, etc., e que era desses processos que se geravam os avanços ou retrocessos que alimentavam a própria história da humanidade. Hegel identifica a uma relação dialética como o conflito de um conceito (tese) confrontado com o seu oposto (anti-tese) para gerar posteriormente uma conclusão (síntese). Esta simplificação representa muito daquilo que é o pensamento moderno racional, do conflito de ideias, da sua colocação à prova até se chegar a uma conclusão e até dos princípios democráticos. Essa conclusão a que Hegel chama “síntese” poderia ser uma nova ideia que teria posteriormente novo contraditório até se chegar a um novo resultado, gerando-se novamente o processo dialético, num processo contínuo ao longo da história mas não linear, até eventualmente a dialética cessar com o verdadeiro conhecimento. O processo tinha avanços e recuos, podendo as “teses” e “anti-teses”, tal como as “sínteses” ocorrer em períodos históricos diferentes. A aplicabilidade desta construção intelectual tem imensas aplicabilidades.
  • Na sequência do processo dialético Hegel também defendia algo bastante original. Dizia que na opinião adversária residia sempre valor e interesse. Ou seja, devemos procurar também na opinião ou posições dos nossos adversários partes da verdade que queremos atingir.
  • Hegel também se dedicou à estética. Destacava a importância da arte como mecanismo de vinculação de ideias, de expiação, de catarse, de transmissão de sentimentos, valores e cultura. A arte tinha de ter um propósito. A cultura seria o maior dos valores, tendendo o processo dialético para essa conclusão.
Hegel criou um pensamento monumental que parece ser de uma actualidade incrível, apesar dos seus dois séculos. Podemos ver inspirações da sua filosofia na história das ideias e da própria humanidade desde o século XIX.
 

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